Estávamos no século XIX, quando uma menina de seu nome Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque vem ao mundo. Era 15 de junho de 1843.1 Esta criança, para a qual Deus tinha altos desígnios, cedo começou a ser tocada pelo dedo de Deus, através dos acontecimentos da vida. “Ainda muito nova, [depois de uma infância pautada pelos princípios de uma família nobre], com os seus 12 anos, perdeu a sua virtuosíssima mãe; e, pouco depois […], perdeu também o seu pai, deixando na orfandade as suas três filhas e os seus dois filhos”.2
Por ter ficado órfã de pai e mãe, Libânia ingressou no Palácio da Ajuda, onde meninas órfãs, de famílias nobres, estudavam e aprendiam lavores e música, ensinadas pelas Irmãs de S. Vicente de Paulo, que D. Pedro V mandou vir para Portugal. Chegada a idade de abandonar este “Colégio”, Libânia foi viver com a Marquesa de Valada, Dona Maria Isabel do Carmo Paula Máxima de Bragança, filha dos Duques de Lafões.3 Aí esteve até 1867.4
Mas, Libânia, “não obstante todas as provas de afeto e estima que ali recebia […], sentia em sua alma o desejo de um ideal muito mais sublime; e, uma particular coincidência, bem depressa a levou a realizar o seu sonho. […] sentindo-se intimamente chamada a uma vida de mais recolhimento e união com Deus, resolveu abandonar o palácio dos Marqueses e ir para o Convento de S. Patrício, de Terceiras Franciscanas Seculares, já dirigido pelo Pe. Raimundo dos Anjos Beirão”5, onde veio a tomar hábito em 1869.6
Este passo decisivo na sua vida já mostra quão forte é o seu carácter, pois romper com os laços nobres que a ligavam à vida social do tempo, lhe exigiu um ímpeto enérgico e perentório. “As suas relações sociais e o meio em que vivia, fizeram com que surgissem obstáculos que a sua resoluta vontade soube vencer”.7
Deu assim os seus primeiros passos na vida religiosa, que “bem depressa revelaram os sublimes dotes do seu coração e do seu espírito”.8 Por isso, rapidamente recebeu o hábito de Capuchinha e fez votos de Terceira Secular, momento em que lhe foi dado o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus.9 Concretizava assim, vigorosa, determinada e cumpridora na sua decisão de toda se entregar a Deus.
E, porque para Deus não há coincidências, mas Ele tudo prepara para que os seus desígnios se realizem, aqui se cruzam as vidas do Pe. Raimundo dos Anjos Beirão e da Irmã Maria Clara do Menino Jesus. “Deus sonha, o homem quer, a obra nasce”, diz o poeta Fernando Pessoa. O sonho que Deus acalentou no coração do Pe. Beirão começa agora a realizar-se na vida desta humilde serva do Senhor, Maria Clara do Menino Jesus.
Fazendo parte daquele segundo grupo de enviadas a Calais, eis que “em 5 de fevereiro de 1870, obedecendo às instâncias do Pe. Beirão, Maria Clara parte para França, para no dia 10 desse mesmo mês, entrar no Postulantado” das Irmãs Hospitaleiras Francesas, onde veio a professar no dia 14 de abril de 1871. Terminada esta etapa de formação inicial, regressa a Portugal, humilde e, a seu pedido, sem ruidosas manifestações de regozijo10. Chegou em 1 de maio desse mesmo ano, na qualidade de Superiora local e com faculdades idóneas de estabelecer em S. Patrício um noviciado filial à Casa de Calais”.11
“No dia 3 de maio do ano de 1871, dia em que a nossa Santa Igreja celebra a exaltação da Santa Cruz, procedeu-se à reforma da antiga Comunidade de São Patrício. Reunida toda a Comunidade, com grande solenidade, leu o Padre Beirão as cartas de obediência das duas Irmãs Maria Clara do Menino Jesus e Maria do Espírito Santo. A primeira, para exercer o cargo de Superiora local, qualidade desde logo reconhecida por toda a Comunidade; e a segunda, para servir como porteira e dirigir, como primeira oficial, o serviço de cozinha”.12
E, aquela menina nobre que acolhe e acalenta com distinção o vocativo de Deus pela boca do Pe. Beirão, aceita agora, na generosidade do seu coração, delicado e sensível, a missão de levar em suas mãos o sonho que Deus aninhou na grandiosidade de um outro coração missionário, empreendedor e grande. Compete-lhe, a partir de agora, ser Mãe de cada Irmã Hospitaleira, dessas que também vão ser Mães no mundo que as espera: “Ides servir de Mães, educando; de Anjos Rafaéis, ensinando o caminho do Céu às crianças com as vossas lições, em as vossas palavras”.13
Decorrido todo o processo para aprovação canónica desta Congregação, cujo decreto data de 27 de março de 1876, foi em 3 de maio desse mesmo ano que a Congregação foi aprovada pela Santa Sé e que a Irmã Maria Clara do Menino Jesus foi eleita Superiora Geral. Foi também a partir deste dia que a Mãe Clara foi “considerada Fundadora da Congregação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres pelo Amor de Deus”14. “Este dia marcou uma época notável, pois estava assim, definitivamente fundada esta Congregação, genuinamente portuguesa”.15
Após a morte do Fundador, Maria Clara do Menino Jesus “sentiu-se profundamente e foi preciso fazer sobre si mesma uma heroica violência para se animar e conduzir sozinha o barco que o Pe. Beirão tinha lançado mar adentro.”16 Ainda que “ajudada e minuciosamente aconselhada até este momento pelo Fundador (…), Mãe Maria Clara foi a raiz e o tronco desta bela árvore Franciscana Hospitaleira.
Passou a sua vida acolhendo reverencialmente os corações feridos pela pobreza e pela solidão, vivendo e testemunhando a hospitalidade misericordiosa de Deus. A sua presença levou consolo e esperança a muitos, em Portugal, na Índia e em vários países de África, onde, pelos seus gestos de compaixão, se tornou um reflexo luminoso do amor divino.
Entregou serenamente a sua alma a Deus em Lisboa, a 1 de dezembro de 1899, coroando uma existência totalmente consagrada ao serviço do bem e à dignificação dos mais frágeis.
1 Livro Primeiro das Crónicas– Nota 38, p. 14.
2 Livro Primeiro das Crónicas– Notas 40 e 41, p. 15.
3 Livro Primeiro das Crónicas – Nota 46, p. 15.
4 Livro Primeiro das Crónicas, p. 16.
5 Crónicas de 33 – Segunda Parte – Cap. I, p. 48.
6 Livro Primeiro das Crónicas, p. 16.
7 Crónicas de 33 – Segunda Parte, Cap. II, p. 49.
8 Crónicas de 33 – Segunda Parte, Cap. II, p. 49.
9 Livro Primeiro das Crónicas – Nota 48 e 52, p. 16-17.
10 Cf. Crónicas de 1933 – Segunda Parte – Cap. III, p. 51.
11 Cf. Livro Primeiro das Crónicas – Nota 53, p. 17
12 Livro Primeiro das Crónicas, p. 19.
13 Circulares – Pe. Raimundo dos Anjos Beirão, p. 6.
14 Separata – 2ª Parte, p. 29 – Nota 96.
15 Cf. Livro Primeiro das Crónicas, p. 23.
16 Separata – Primeira parte, p. 101.