O Legado

As Nossas Origens: Dois Corações, uma só Missão

Onde o Padre Beirão lançou a semente com a sua alma missionária, a Beata Maria Clara fez florescer o abrigo da hospitalidade. Duas vidas entregues a um só propósito: ser o rosto e a mão da misericórdia de Deus entre os homens.

BEATA MARIA CLARA:
O Rosto da Misericórdia e o Abraço da Hospitalidade

Beata Maria Clara do Menino Jesus, de seu nome Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Teles e Albuquerque, nasceu no seio de uma família nobre, a 15 de junho de 1843, na Quinta do Bosque – Amadora. Foram seus pais Nuno Tomás de Mascarenhas Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque e Maria da Purificação de Sá Carneiro Duarte Ferreira, que a levaram a ser batizada no dia 02 de setembro de 1843, na igreja de Nossa Senhora do Amparo, Benfica.

A sua linhagem prometia o conforto dos palácios, mas o destino reservava-lhe o crisol da provação. Entregue a si mesma, ainda na aurora da juventude, Libânia sempre demonstrou um espírito enérgico e uma personalidade inabalável, cimentada não apenas nas complexidades da infância, mas numa sucessão de sofrimentos que a acompanharam até ao fim dos seus dias.

Mesmo no recolhimento do Asilo Real da Ajuda e, mais tarde, no luxo do Palácio dos Marqueses de Valada, Libânia sentia que a nobreza do sangue não bastava. O seu coração pedia uma nobreza maior: a do serviço. O clamor dos “sem nada” ecoava mais alto que os bailes da corte.

Impelida por esta força íntima, despiu a seda para vestir a caridade. Em 1869, na Casa de S. Patrício, abraça o ideal de S. Francisco e nasce a Irmã Maria Clara ao Menino Jesus. O seu noviciado em Calais, França, foi o prelúdio da fundação da sua própria Congregação em Portugal, em 1871.

Durante 28 anos, ela foi o rosto da misericórdia. Sob o lema “Trabalhemos com amor e por amor”, fundou mais de 142 obras. Desde hospitais a cozinhas económicas, o seu abraço chegou a Angola, Goa, Guiné e Cabo Verde. Para Maria Clara, não havia “massa sobrante”: cada pobre e cada doente era o próprio Cristo a pedir abrigo.

Faleceu a 1 de dezembro de 1899, mas o seu “fazer o bem, onde houver o bem a fazer” continua vivo. Hoje, na cripta de Linda-a-Pastora, o seu repouso é o destino de muitos que, como ela, procuram na intercessão de Deus o conforto para as suas próprias complexidades.

PADRE RAIMUNDO BEIRÃO:
O Coração da Misericórdia e o Instrumento da Providência.

Nascido em Lisboa, na freguesia do Socorro, a 8 de março de 1810, o Padre Raimundo dos Anjos Beirão foi um homem de espírito aberto, alegre e de uma firme integridade. Desde a sua juventude, a sua vida foi um testemunho vivo de amor a Deus, traduzido numa entrega absoluta aos mais pobres, guiada sempre por uma confiança cega na Divina Providência.

Professou na Ordem Terceira Regular de São Francisco, assumindo o nome de Fr. Raimundo de Santa Maria dos Anjos. Ordenado sacerdote em 1833, trazia no peito uma caridade tão vasta que o tornaria, para Portugal, o que Vicente de Paulo fora para a França: um farol de esperança num tempo de trevas.

Nem mesmo o furor antirreligioso das ideias liberais, que o expulsou do convento em 1834, conseguiu apagar o seu zelo apostólico. Pelo contrário, a perseguição deu-lhe um novo dinamismo. Como Capelão da Armada Real e do Recolhimento de Nossa Senhora da Rosa, o Padre Beirão não conhecia o repouso; a sua determinação impelia-o a correr incansavelmente para onde houvesse “algum Bem a fazer”.

Visionário, fundou a Associação Filhos de São Caetano para instruir meninos pobres e preparou jovens vocacionados para o sacerdócio. A sua voz, reconhecida na fama de grande orador sacro, percorreu o país, enquanto o seu coração de pastor amparava a comunidade das Capuchinhas de Aldeia Galega – a semente da futura Congregação.

Faleceu a 13 de julho de 1878, no Convento das Trinas, consumido por uma doença maligna, mas deixando um legado eterno. O Padre Beirão não foi apenas um Fundador; foi a força impulsionadora que ensinou que a verdadeira Hospitalidade nasce da confiança total em Deus e no serviço humilde ao próximo.