Menoridade

O MAIOR ARGUMENTO TEOLÓGICO DA MENORIDADE

Tende entre vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus:
Ele, que é de condição divina,
não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo.
Tornando-se semelhante aos homens
e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
rebaixou-se a si mesmo,

Para nós, Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, o tema da menoridade vem despontando como uma necessidade urgente, sobretudo através do Processo de Renovação e Reorganização (PRR), realçando a importância de recuperar alguns de seus valores que foram esquecidos, dispersos e/ou que, porventura estão como brasas sob cinzas, encobertos  e deverão receber novo sopro para que possam abrasar os nossos corações e iluminar os nossos olhos e os nossos caminhos futuros[1]. Finalmente, é importante porque, a menoridade identifica o nosso modo de ser. Não permite que nos apropriemos do poder, do ter e dos próprios cargos, pois ela é renúncia de qualquer superioridade[2].

DESAFIOS DO MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO PARA VIVER EM MENORIDADE.

Impõe-se uma pequena abordagem ao tempo em que vivemos. O nosso olhar terá de voltar-se para o hoje da sociedade, da Igreja, da Vida Consagrada, da Congregação. É o tempo do novo no Espírito, o kairós de Deus que deseja fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). Tendo  o tempo de Francisco e o contexto em que ele viveu, como pano de fundo.

A Igreja da sua época atingiu o fastígio do poder, inundada de bispados e mosteiros, solidamente instalados em latifúndios. Essa Igreja, ligada a um sistema social caduco, ultrapassado e opressivo, tornou-se incapaz de compreender o mundo novo[3]. Neste contexto inundado de desejo de poder, dá-se, em Francisco, a conversão da mentalidade, o encontro com o mistério de um Deus pequeno e a instauração do estilo de vida em menoridade.

Hoje, o Papa Francisco apela-nos a sair da auto-referencialidade. Onde não há acolhimento da alteridade, recusa-se uma conversão para a vivência da menoridade. A experiência fundante da menoridade de Francisco de Assis provém da revelação do Grande Outro. A partir daí, para Francisco o outro foi o leproso frágil, sofrido, repugnante, com aparência de “ameaça” para a sociedade[4].

Renascer em menoridade

Inseridas no mundo e situadas no tempo, o desejo de renovação acompanha-nos sempre, por fidelidade  ao  Carisma que tem a raiz no Evangelho ,  sempre novo e renovador. Assim, a Congregação tornar-se-à um canal mais adaptado à evangelização do mundo atual do que à autopreservação (cf. Evangelii Gaudium, 27).

Todo o magistério de Francisco aponta-nos, seguida da renovação de vida, a transformação das estruturas e convida-nos a não ter medo da novidade do Espírito. Assim escreve: Almejo a racionalização das estruturas, a reutiliza­ção das grandes casas em favor de obras mais cônsonas às exigências atuais da evangelização e da caridade, a adaptação das obras às novas necessida­des[5]. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repen­sar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades (Evangelii Gaudium, 33).

Um olhar atento aos documentos do Magistério permite-nos encontrar a visão de uma vida consagrada carente de renovação. Renascer em menoridade exige repensar a formação.

“Vida Religiosa em Saída”

A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. É desconfortável ter portas abertas! Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas é correr riscos mas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido (Evangelii Gaudium, 46). Para o Papa , ser Igreja em saída é ter portas abertas para acolher quem ficou caído à beira da estrada (cf. Evangelii Gaudium, 46). Os primeiros a encontrar esta porta aberta devem ser os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos! (Evangelii Gaudidum, 48). Sabe-se que socorrer os pobres é correr riscos, porém o Papa Francisco prefere que corramos esse risco: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças (Evangelii Gaudium, 49). 

A Mãe Clara permaneceu , na história da Congregação,  como uma irmã menor dedicada e servidora dos desvalidos da sociedade. A sua caridade, impulsionada pelo amor de Deus, não conhecia limites. Tudo o que era e tudo o que possuía estava a serviço dos infelizes[6]. O distintivo que carregava era o serviço aos mais necessitados.   

 É  cada vez mais insistente  insistente o convite do Papa Francisco: Saiamos, saiamos! (Evangelii Gaudium, 49). Saiamos, Irmãs e tenhamos a coragem de contemplar e abraçar o mistério do pecado, da dor, das injustiças, da miséria, voltemo-nos para os lugares recônditos da alma, onde toda pessoa experimenta a alegria e o sofrimento do viver (Alegrai-vos, 11).

Como irmãs menores, sair com determinação, sabendo de onde partimos, de onde viemos e aonde queremos chegar. Com novo vigor em busca do Rosto do Cristo menor que sempre abraça os mais pequenos.

Fraternidade revestida de força menor

A Fraternidade é  o lugar onde o mistério humano toca o mistério divino, o lugar da  experiência do Evangelho. A Fraternidade é o espaço onde acontece o cuidado de Deus, que se manifesta  em cada gesto de amor fraterno.  Não podemos   permitir que o nosso tempo seja preenchido de atividades, de coisas e de palavras, mas preenchido também com desejos de um encontro, de uma relação fraterna verdadeira (cf. Sondai o horizonte, 13). Ao celebrar o Ano da Vida Consagrada, em 2014, o Papa Francisco disse esperar um crescimento de comunhão entre os membros dos diferentes Institutos, que os levaria a sair, com coragem, das fronteiras do próprio Instituto, para elaborar projetos de formação, de evangelização e de intervenções sociais, enfatizando ser este um caminho de esperança, para uma comunhão aberta ao encontro, ao diálogo, à escuta, à ajuda mútua,  [7]. Somos chamadas a abrir canais construtores de fraternidade: a cultura da proximidade, do encontro e do diálogo onde se promova o bem comum e a alegria de viver. Esses canais “abaixam” as defesas, abrem as portas e constroem pontes (cf. Alegrai-vos, 1

A força da missão

 A missão é amar! O Senhor precedeu a comunidade missionária, no exercício do amor (cf. 1 Jo 4,10). Por isso ela é capaz de ir à frente, tomar iniciativas sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos (cf. Evangelii Gaudium, 24). A comunidade missionária abraça o gesto do lava pés, encurta as distâncias , abaixa-se e, se for preciso chega até à humilhação, para assumir a vida humana e tocar a carne sofredora de Cristo, presente no seu povo (cf. Evangelii Gaudium, 24).

Testemunho de vida em menoridade

O testemunho é um sigilo na fronte, no coração, no braço, nos olhos e nos lábios (cf. Alegrai-vos, 5). A vida consagrada pede-nos esta marca na fronte para que professemos sempre a nossa fé no Deus Uno e Trino. Significa testemunhar sem o esforço de muitas palavras. Já a Mãe Clara nos dizia: não é necessário uma porção enorme de palavras inúteis[8].

Temos rosto, fronte, coração, braços, etc. para viver a menoridade, a hospitalidade e a fecundidade. Há tantos pobres ao nosso lado e entre nós, carentes dessa lição do amor exercido com a fronte, com o coração, com os ouvidos, com os braços, etc. Eu espero de vós um tal testemunho (Alegrai-vos, 10).

A menoridade, coloca-nos diante de Jesus, pobre, humilde e crucificado! OÉ a nós que se dirige  o  terno e vigoroso imperativo do Poverello de Assis : Quero que sejais chamadas irmãs menores[9].

Forte e muito claro é o imperativo do Mestre que seguimos:

25Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. 26Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e 27quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão (Mt 20,25-27).


[1]Cf. TEIXEIRA, Celso Márcio, OFM. Perfil do Frade Menor. Revista Franciscana. FFB, 2001, Vol. I, n. 1 e 2, p. 7.

[2] Cf. MAZZUCO, Vitório. Minoridade, 2018.

[3] Idem, p. 74.

[4] Cf. SUSIN, Luiz Carlos. Conferência em Assis, 2004.Texto para a publicação.

[5] PAPA FRANCISCO, Carta Apostólica a todos os consagrados e Consagradas, por ocasião do Ano da Vida Consa­grada, Ed. Paulinas, 2014,  II, 4.  

[6] Positio, Super Vita, Virtutibus Et Fama Sanctitatis, vol. I, Roma, 2003, p. 22.

[7] Cf. PAPA FRANCISCO, Carta Apostólica a todos os consagrados e Consagradas, por ocasião do Ano da Vida Consa­grada, Ed. Paulinas, 2014, II,3.

[8] M. CLARA, Circulares, p. 8.

[9] CELANO Tomás – Vida Primeira, 38.