Fecundidade

Uma leitura à luz da espiritualidade da CONFHIC [1]

1. A necessidade de dar fruto

«Escolher o celibato por causa do reino quer dizer ser chamado a viver ple­namente a própria paternidade/maternidade. […] É um impulso para amar e produzir vida»[2], afirma Amadeo Cencini.

Urge pensar a fecundidade como um traço característico da nossa identidade carismática. Chamada à geração e à transmissão da vida, cada IFHIC é convocada a aprender com Maria, a mãe Hospitaleira, com S. Francisco de Assis e com os nossos Fundadores, o acolhimento e a oferta do dom recebido de graça em total gratuidade.

O que torna alguém verdadeiramente fecundo é o amor, conforme ao desígnio criador de Deus.

 

2. A fecundidade na Bíblia: Um imperativo em resposta ao mandato de Deus

A temática da fecundidade surge aplicada a Deus e a Jerusalém. «O Deus bíblico é muitas vezes dito com as imagens fortíssimas do ventre maternal e do colo e olhar materno»[3]. Num contexto de uma Jerusalém despovoada e desolada, o profeta Isaías grita a esperança de que Deus fará surgir vida sobre as ruínas de Sião, que será desposada e novamente habitada, como mãe fecunda de muitos filhos que não pode conter em si o caudal da vida: «Alarga o espaço da tua tenda, porque vais aumentar por todos os lados» (Is 54, 2a-3). A fecundidade provém do “desposamento” com Deus, da sua presença no meio do povo.

 

3. A fecundidade da Vida Consagrada expressa e realiza a maternidade da Igreja

«A Igreja cresce por atração maternal, por ternura, pelo testemunho que gera sempre novos filhos»[4].

Na vida das mulheres consagradas a maternidade espiritual exprime-se como solicitude pela humanidade, especialmente pelos mais necessitados, nos quais reencontram o seu Esposo de mil rostos (cf. Mt 25, 40), ensina a Mulieris Dignitatem (cf. MD 21).

Na mesma senda, a Vita Consecrata subleva que cada uma das vocações eclesiais é memória viva da fecundidade do amor de Deus para o crescimento do mesmo corpo.

 

4. Maria de Nazaré, uma vida fecunda pela ação do Espírito

Maria, virgem e mãe, é, para nós, modelo de fecundidade. A nossa família religiosa está, desde as origens, ligada à invocação de Maria, sob o título de Imaculada Conceição, uma espiritualidade mariana alimentada e nutrida pelo Evangelho, presente na vida de Francisco e dos nossos Fundadores[5].

«Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

Diante da graça derramada em nossos corações, a consequência que se impõe é a gratuidade, deixar que o Espírito Santo faça de nós um dom para os outros

As relações fraterno-maternas segundo S. Francisco de Assis

A Legenda dos Três Companheiros testemunha que o amor entranhado que Francisco quis que existisse entre os Irmãos não foi só um desiderato, mas um imperativo vivido por ele e pelos seus seguidores, nomeadamente quando afirma que os irmãos se amavam «com entranhado amor e cada qual servia o outro como a mãe nutre seu filho único e dileto.

Francisco sentia-se como uma mãe cuja missão primordial é gerar irmãos para seu irmão, Jesus[6].

A Regra da TOR 16 exorta os irmãos a lembrarem-se «de que, por altíssimo dom da graça, foram chamados para testemunhar com a sua vida o admirável mistério da Igreja», que encontra em Maria o seu protótipo ideal. Há na visão de Francisco, um profundo sentido mariano-eclesial da maternidade espiritual, nota distintiva da espiritualidade franciscana[7].

 

​​​​​​​​​​​​​​5. Os Fundadores da CONFHIC: Uma vida fecunda em expansão

O P. Raimundo dos Anjos Beirão e a Ir. Maria Clara do Menino Jesus – caracterizam-se por uma vida plena de fecundidade, sendo incontáveis as vidas por eles geradas em/para Cristo. Puseram no mundo um jeito de ser casa da hospitalidade misericordiosa e envolveram muitos na arte de bem-fazer. «As Irmãs devem tratar os doentes mais velhos com um amor e respeito filial, os mais novos com um amor e respeito fraternal, e as crianças com a meiguice e amor maternal, dirigindo a todos palavras de consolação»[8].    

Incansável missionário apostólico, P. Raimundo dá tudo e dá-se todo, em total gratuidade. Nenhuma provação detém a sua generosidade. Eis como ele desvenda o carisma da IFHIC: Jesus Cristo «escolheu-vos para serdes apóstolas da sua misericórdia e caridade para com os pobres e ricos»[9].

O Fundador recorda às Irmãs que o amor filial-fraternal-maternal deve ser irrenunciável e norma de atuação entre todas: «Irmãs Superioras, sede mães de vossas filhas; e, filhas, sede filhas de vossas mães»[10].

A Beata Maria Clara do Menino Jesus era uma mulher de coração sensível e sem fronteiras, firme e maternal, aberto e compassivo. Humilde, audaz, atenta ao mundo que a rodeia, não olha a meios nem a esforços para manifestar o cuidado amoroso de Deus junto dos mais esquecidos. Nutria para com as crianças um carinho todo especial.

Amava intensamente as suas Irmãs e estava atenta às suas necessidades. Como formadora e guia, preocupava-se em educar o coração das suas discípulas, sem mascarar as durezas da vida. Impressiona como, em tempos tão conturbados, soube conciliar bondade e firmeza, espiritualidade e contexto, autoridade e pequenez, carinho maternal e vigilância.

Mãe Clara ousou fazer da encarnação da hospitalidade um rosto da ternura e da misericórdia de Deus, em resposta aos clamores do mundo, no meio de inúmeras adversidades, interpelando a nossa fé, a nossa confiança em Deus e nas possibilidades do impossível. E dizia: «fé faz obrar prodígios»[11].

 

​​​​​​​6. Traços da fecundidade nos textos constitutivos da CONFHIC

O nosso brasão contém alusões implícitas a uma fecundidade materna que deve plasmar o ser da IFHIC. A Lucerna ardente, a Estrela heráldica e o Lema falam-nos de disposições e atitudes típicas de uma mãe. O lema Lucere et Fovere – acalentar, proteger, cuidar e promover a vida – bem poderia ser traduzido por dar à luz (cf. Constituições, p. 10) .

Talhada de traços de fecundidade materna é também a imagem da Imaculada Hospitaleira, uma fecundidade vivida como acolhimento incondicional ao Verbo de Deus e aos homens. «Como Irmã menor e a exemplo da Virgem Maria, serva e pobre, no acolhimento e na escuta do Verbo, compromete-se a viver a Hospitalidade» (Constituições, p. 11).

É frequente, entre nós, comparar as nossas Fraternidades a uma ‘tenda’, onde a vida é fecundada, gerada, esperada, acolhida, refeita, restaurada, cresce, se transforma. Afinal, ser mãe é ser tenda do encontro, ser casa fecunda, ser casa aberta (cf. Constituições, 60 § 1).

 

​​​​​​​​​​​​​​7. Desafios e urgências para uma vida FHIC fecunda

À semelhança da Igreja, a CONFHIC está vocacionada a ser mãe fecunda e feliz.

Formação para a fecundidade/maternidade espiritual

Deixarmo-nos formar e ser formadas para a fecundidade/maternidade espiritual, até que Cristo se forme em nós.

Proximidade com o Senhor para uma vida fecunda

Esta urgência consiste em estreitar a proximidade com o Senhor de quem brota a fecundidade da pessoa consagrada

Tornar as nossas fraternidades lugar privilegiado onde se engendra a vida

Desafio ingente é tornar as nossas fraternidades lugares privilegiados onde se engendra a vida, à maneira de um grande regaço materno, com a capacidade de acolher maternalmente a todos sem exceção!

Criar um coração alegre e missionário

Sem êxodo não há fecundidade.. Impõe-se que cada IFHIC crie em si um coração alegre e missionário, disposto a inovar, como nas origens, uma Congregação em saída.

Uma liderança com entranhas de mãe

A temática da fecundidade provoca, também, um forte desafio às nossas relações de autoridade-obediência. Reclama-se que as lideranças sejam fecundas e felizes a exemplo de Jesus, de S. Francisco e dos nossos Fundadores, que não estavam revestidos de poder, mas daquela autoridade testemunhal de quem oferece a própria vida. Exercer a autoridade com entranhas de mãe é: ser terna guardiã, sensível às dores e fragilidades suas e dos outros; ser humana e acolhedora; moldada pela escuta, pelo espírito de discernimento e de serviço humilde; capaz de ver as maravilhas de Deus; serena, madura e livre de preconceitos; apenas motivada pelo amor; uma liderança que confia nos jovens. Não esqueçamos que «para Deus autoridade é sempre sinónimo de serviço, de humildade e de amor

A resposta a estes desafios aprende-se na contemplação assídua da Imaculada Hospitaleira, virgem e mãe, serva do Senhor, mulher grávida de Deus, arca da Nova Aliança, tenda do encontro, seio fecundo de vida, regaço disponível, coração atento, colo acolhedor para todos os filhos que conduz ao Filho.

Processo de Revitalização e Reorganização, 4ª Etapa, Lineamente, síntese do texto Fecundidade, pp. 60-79.


[1] Texto elaborado pela Ir. Maria de Fátima Moreira Martins

[2] CENCINI, Amadeo – Com amor: Liberdade e maturidade afetiva no celibato consagrado, Terceira parte, São Paulo: Paulinas, 1997, p. 224.

[3] COUTO, António – Maria, mãe de misericórdia, mulher eucarística. Estudo para publicação.

[4] FRANCISCO – Discurso aos participantes do Congresso Pastoral da Diocese de Roma, 16 de Junho de 2014.

[5] Cf. Diretório Geral, artigo 18 § 3.

[6] Cf. S. BOAVENTURA – Legenda Maior, 8,1; 3,7.

[7] Cf. AA.VV. – Dicionário Franciscano, Petrópolis: Vozes e CEFEPAL, 1993, p. 404; ANASAGASTI, Fr. P. de – Principios teológicos de la piedad mariana de San Francisco de Asís, Separata de Estudios Marianos, Vol. XLVIII, Salamanca, 1983, p. 407.

[8] CÓPIA PÚBLICA – Causa de Canonização da Serva de Deus Maria Clara do Menino Jesus, Patriarcado de Lisboa, Vol. II, 1998, doc. 262, p. 366.

[9] P. BEIRÃO – Circulares, p. 44.

[10] P. BEIRÃO – Circulares, p. 44.

[11] M. CLARA – Circulares, p. 81.