Beata Maria Clara

Irmã Clara, uma história portuguesa (João César das Neves)

Portugal, com este modo de ser, informal, improvisado, atrevido mas benévolo, tem muitas histórias espantosas. Uma das mais extraordinárias, quase incrível, começou há 175 anos, perto de Lisboa.

Libânia Albuquerque nasceu na Amadora em Junho de 1843 e a sua vida correu sem nada de notável, até que em Maio de 1871, com menos de 30 anos, decidiu criar uma ordem religiosa de apoio aos mais pobres e doentes. Este facto, se justifica alguma admiração, não revelaria qualquer anormalidade, se as ordens religiosas não estivessem totalmente proibidas devido ao liberalismo, desde o fim da guerra civil em 1834. Criar uma congregação feminina era contrário à lei e, portanto impossível. Assim seria num país normal, mas Portugal não é um país normal. Libânia, que entretanto mudara o nome para Irmã Maria Clara do Menino Jesus, avançou com a sua criação e até pediu para ela licença ao Governo Civil de Lisboa.

O que se segue é uma impressionante história de ambiguidade, improvisação, compromisso e diplomacia. Não podia ser uma nova criação, pelo que se começaria inserida numa já existente, as Capuchinhas de S. Patrício. Não era possível ser Ordem, seria Associação de Beneficência. Não podia ter ligações estrangeiras, mas o noviciado era feito em Calais, França. Funcionava ilegal, mas conseguia que o Governo lhe desse instalações. Nem sequer o nome podia ser estável e por isso a Associação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres pelo Amor de Deus teve várias designações, até ao actual de Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, CONFHIC. De tempos a tempos a imprensa anticatólica descobria, com horror, estas flagrantes violações dos cânones legais. Havia ameaças, era aberto inquérito, gerava-se muito sofrimento, destruía-se muito bem e, no final, como é típico em Portugal, tudo permanecia.

Porque, debaixo deste caos formal e indefinição jurídica, havia uma obra de Igreja em explosão de influência. Tudo começara com três irmãs, mas rapidamente as vocações multiplicaram-se, e com elas vinham as iniciativas de caridade, precisamente entre os mais necessitados. Cedo começaram os pedidos de todo o lado, porque as irmãs eram conhecidas pela sua eficácia e dedicação. Por muitas dificuldades legais que surgissem, que muitos amigos, até na Casa Real, faziam por resolver, o país não podia dispensar as Irmãs Hospitaleiras.

Quando morreu, em 1899, a Madre Clara tinha recebido mais de mil religiosas, com 148 obras - hospitais, colégios, asilos e mosteiros – espalhadas por todo o Portugal, Luanda, Goa, Guiné-Bissau e Cabo Verde, ajudando incontáveis pessoas. O desenvolvimento continuou, até à actual presença e missão da CONFHIC. A Fundadora foi beatificada em Lisboa, a 21 de Maio de 2011, e corre o processo de canonização. Mas a sua vida permanece um espantoso sucesso improvável, que só podia acontecer em Portugal.

 

Mãe Clara, Calcutá no Tejo (João César das Neves)

 As últimas décadas impressionaram-se muito com a caridade de Santa Teresa de Calcutá. O seu amor pelos mais pobres entre os pobres, a que dedicou a sua congregação, foi empolgante e divulgado por todo o planeta na era da comunicação. Aquilo que os jornalistas não sabiam é que esse tipo de caridade nada tem de especial, sendo muito frequente entre os discípulos de Cristo. A história da santidade está cheia de exemplos semelhantes ao longo de 2000 anos. Em Portugal, entre muitos outros casos, existe um que, cem anos antes, antecipa perfeitamente a missão de Santa Teresa, trazendo Calcutá até ao Tejo.

A madre Maria Clara do Menino Jesus nasceu há 175 anos, fundando, aos 30 anos, uma congregação dedicada ao auxílio dos mais pobres. No século XIX, Lisboa tinha muitas semelhanças com a Calcutá actual; foi essa miséria que fez sangrar o coração da religiosa. A Associação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres por Amor de Deus nasceu em 1871 e rapidamente as obras multiplicaram-se diante das necessidades. Creches e colégios para as crianças abandonadas, lares de idosos, hospitais para doentes, cozinhas alimentando os pobres, a Associação foi-se encontrando envolvida na ajuda a milhares de infelizes. Os pedidos de irmãs vinham de vários lados, e apesar do grande número de vocações, as necessidades eram sempre maiores.

Há, no entanto, uma grande diferença entre a santidade da Mãe Clara e a de Santa Teresa: no Portugal de oitocentos o poder, embora incapaz de tratar da miséria, seguia ideologias que recusavam as ordens religiosas. Por isso, toda essa magnífica obra de amor foi sempre feita em semi-clandestinidade e eminente risco de extinção, sob ocasionais ataques absurdos e violentos. Os inimigos não eram apenas a fome, a doença, a solidão e a carência, mas também a incompreensão, a calúnia, a blasfémia e a perseguição.

A única arma das irmãs era o amor de Deus, que a congregação ostentava no seu nome nestes primeiros tempos. Esse amor era eficaz. A história de Mãe Clara está cheia de episódios de intervenções providenciais: a falta aflitiva de qualquer coisa, comida, roupa, dinheiro, era súbita e inesperadamente colmatada por uma oferta inopinada. Como ela dizia: «nunca desconfio de Nosso Senhor, que Ele Se não digne dar-me uma prova da sua paternal bondade». Mas aquele aspecto em que melhor se via o amor de Deus era a multiplicação de vocações, desproporcionada aos obstáculos que agrediam a Associação, tornando-a a maior congregação do país.

Hoje, após mais de 145 anos de história e sete anos após a beatificação da Fundadora, a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, CONFHIC continua a sua missão, porque a miséria permanece na era da informação, junto com o amor de Deus.

 

Resenha histórica da Beata Maria Clara do Menino Jesus

Irmã Maria Clara do Menino Jesus (Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Teles e Albuquerque) nasceu no seio de uma família nobre, a 15 de Junho de 1843, na Quinta do Bosque – Amadora, perto de Lisboa. Foram seus pais Nuno Tomás de Mascarenhas Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque e Maria da Purificação de Sá Carneiro Duarte Ferreira. Foi baptizada na igreja de Nossa Senhora do Amparo, Benfica, no dia 02 de Setembro de 1843. Órfã desde os 13/14 anos, Libânia sempre demonstrou um espírito enérgico e independente, um temperamento forte, uma espiritualidade profunda e uma sólida firmeza de carácter, cimentado pelas inúmeras dificuldades e muitos sofrimentos com que se deparou ao longo da sua vida: O falecimento do seu tio-avô na sua própria casa, e o do seu irmãozinho Rui; A perda da mãe vítima da cólera mórbus, em 1856, e do pai em consequência da febre amarela, em 1857; O internamento no Asilo Real da Ajuda, destinado às órfãs de famílias nobres e dirigido pelas Filhas da Caridade Francesas (Irmãs de São Vicente de Paulo); A ocorrência do incêndio no palácio velho da Ajuda, onde estava instalado o Asilo; A expulsão das Religiosas, suas educadoras, em 1862, e consequente mudança de residência para o palácio dos Marqueses de Valada, onde viveu cinco anos, continuando a preparação para o meio social que era o seu – a nobreza. Apesar de tratada como filha, sobretudo pela Marquesa, amiga de seus pais, Libânia sentia em si uma força íntima que a impelia a um ideal maior. O clamor dos sem nada e sem ninguém desafiava o seu viver. Vai procurar a Vida Religiosa como meio de se entregar totalmente ao serviço dos mais necessitados. Após vida luxuosa, contrastante com a pobreza e miséria da sociedade do seu tempo, recolheu-se em 1867, como pensionista, na Casa de S. Patrício, junto das Irmãs Capuchinhas, orientadas pelo P. Beirão. Percebendo claramente o chamamento do Senhor, em 1869, tomou o hábito de Capuchinha de Nossa Senhora da Conceição e recebeu o nome de Ir. Maria Clara ao Menino Jesus. A 10 de Fevereiro de 1870, a pedido do P. Beirão, partiu para o Convento de Nossa Senhora das Sete Dores, em Calais - França, para aí fazer o Noviciado, na intenção de fundar, depois, em Portugal, uma nova Congregação. Professou no dia 14 de Abril de 1871, em França, regressando à Pátria, a 01 de Maio desse ano, como Superiora Local e com a faculdade de estabelecer, em S. Patrício, um Noviciado filial de Calais, cargos que assume três dias depois. Ficava assim fundada a primeira Comunidade, em São Patrício – Lisboa, no dia 03 de Maio de 1871 e, cinco anos depois, a 27 de Março de 1876, a Congregação já estava aprovada pela Sé Apostólica. Ao longo de 28 anos, presidindo aos destinos da Congregação, recebeu cerca de 1000 irmãs e com elas tornou-se pioneira da acção social no seu país, fundando mais de 142 obras, distribuídas por hospitais, enfermagem ao domicílio, creches, escolas, colégios, assistência a crianças e idosos, cozinhas económicas, entre outras. Nestas instituições o pobre, o doente, o desvalido de toda a sorte, a massa sobrante do seu tempo, puderam conhecer o amor e os cuidados de mulheres dedicadas inteiramente ao serviço dos mais necessitados, experimentando assim a ternura e a misericórdia de Deus. A exortação frequente: “Trabalhemos com amor e por amor” era a síntese do seu viver. Só a caridade a norteava. Toda a sua vida foi um gastar-se no labor contínuo de “fazer o bem, onde houver o bem a fazer", lema de acção do Instituto por ela fundado. Esta mesma acção foi estendida, progressivamente, a Angola, Goa, Guiné e Cabo Verde. A Ir. Maria Clara do Menino Jesus faleceu no Convento das Trinas, em Lisboa, no dia 1 de Dezembro de 1899, com 56 anos, vítima de doença cardíaca, asma e lesão pulmonar. Foi sepultada três dias depois, no cemitério dos Prazeres, acompanhada de enorme multidão de fiéis que reconheciam a sua santidade. Sepultada no Cemitério dos Prazeres, foi trasladada, em 1954, para o Convento de Santo António, em Caminha, e repousa, a partir de 1988, na cripta da Capela da Casa-Mãe da Congregação, em Linda-a-Pastora, Queijas, Patriarcado de Lisboa, onde acorrem inúmeros devotos a implorar a sua intercessão junto de Deus.